Lenda: A tomada do Castelo de Aljezur 

D. Paio Peres Correa, e entramos agora no mundo da bela lenda, conhecedor da situação privilegiada da velha fortaleza e da vigilância apertada que os moiros exerciam, mandou batedores no intuito da estudar as características do local e os hábitos das gentes, com vista à elaboração do seu plano de ataque.
Conseguiram "aliciar" uma moira de nome Maria Aires, de raro encanto, que lhes contou, como era costume e habito muito antigo e ainda observado, na madrugada do dia 24 de Junho os habitantes da região irem tomar banho à Praia da Amoreira. Tanto bastou para que D. Paio arquitectasse o seu plano de ataque, tirando proveito daquela tradição moirisca. Assim, na noite de 23 para 24 de Junho, as nossas tropas esconderam-se num vale próximo do castelo que hoje è conhecido pelo Vale de D. Sancho, em honra daquele nosso valoroso Monarca (D. Sancho II) e aguardaram que, com o amanhecer, os moiros iniciassem o seu ritual. As horas passavam lentas naquela longa espera que os nossos aproveitaram para se cobrirem com arbustos, e assim poderem, mais facilmente, desenvolver a aproximação final. Com o despontar da aurora começou o longo desfilar dos confiantes moiros, quem sabe se pelo mesmo caminho que ainda hoje lá existe pelo lado esquerdo do Rio, bordejando o vale, imenso e fértil, formado pelos aluviões da Ribeira de Aljezur.
Assim que tal lhes pareceu propício e ainda a coberto da semi-obscuridade, aquele punhado de valentes portugueses iniciaram a aproximação do castelo, àquela hora já deserto, bem como toda a restante povoação.
Eis senão, quando uma rapariguita, neta de uma velha que havia ficado, afinal, vigilante no castelo, apercebendo-se dos movimentos das nossas tropas, correu para a avô, alertando-a, na sua ingénua infantilidade, que as moitas estavam a andar, pois, como referidos, os portugueses tinham tido a preocupação de se camuflarem com arbustos.
A ansiã, sem descortinar no logro em que incorria, tentou dissuadir a neta, dizendo-lhe que tal facto se devia, por certo à aragem que soprava.
De repente, porém, e em catadupas, irromperam os nossos, pelo portão da fortaleza, dominaram a velha que esboçou a pretensão de dar o alarme fazendo accionar um sino que estaria colocado na torre da cisterna, tomaram posições, apreenderam as armas e então, eles próprios, deram o alarme. Os moiros, céleres e atónitos, regressaram à povoação, sendo complemente aniquilados à medida a que iam entrando no recinto amuralhado. Aljezur era Portuguesa. À bela Maria Aires, como recompensa dos serviços prestados e parecer que também pelos seus encantos que teriam favoravelmente impressionado a D. Paio, foi-lhe poupada a vida e para que não fosse molestada, construíram-lhe uma casa num local próximo de Aljezur a que ainda hoje, se chama, em sua memória, a daquela bela moira de lindos cabelos negros, - Mareares - .

F.E. Rodrigues Ferreira

 Obs: Texto cedido pela Associação de Defesa do Património Histórico e Arqueológico de Aljezur

Nota: O castelo seria tomado ao romper da alva, e os cavaleiros logo se ajoelharam para agradecer a vitória a Deus e a Nossa Senhora da Alva, ficando a Padroeira de Aljezur a chamar-se "N.ª Sr.ª D'Alva".

Nota: Quando os mouros regressam após o cumprimento sagrado de um Ritual Místico, são decapitados na zona sul do castelo, passando a chamar-se de "Degoladouro" e as suas cabeças arremessadas para o cerro a norte, denominado posteriormente de "Cabeças". 

Lenda: As Santas Cabeças 

Na ponta mais ocidental do Algarve, aí está o concelho de Aljezur. Da sua antiguidade dão notícia achados arqueológicos do paleolítico e elementos de cultura mirense (4.000 AC), para além de descobertas de cerâmica grega. Pois na Igreja matriz desta vila estão depositadas duas caveiras conhecidas como Santas Cabeças. Um pouco de toda a região ali afluem grupos de pessoas, padecendo de mordeduras de cães e de outros animais, dores de cabeça e de dentes, males de coração e outros. Procuram lenitivo, cura. E aquelas relíquias são veneradas e dizem-nas milagrosas. E a história vem do tempo do Rei D. Manuel I e do Bispo do Algarve D. Fernando Coutinho. Pois então existiam no espaço geográfico deste concelho dois lavradores, João Galego e Pedro Galego, pai e filho, reconhecidamente trabalhadores, bondosos e justos. Porém, a fama deles cresceu quando começou a constar que apenas com o hálito curavam os doentes que junto deles acudiam. E deles restam a lenda e as Santas Cabeças de Aljezur, que continuam a ser veneradas.

In "Lendas de Portugal" - Ed. Diário de Notícias 

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